Os Tectos da Igreja do Sacramento

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Aplicam-se aos tectos da igreja do Santíssimo Sacramento, trabalho que Pedro Alexandrino terminou em 1805, as considerações que o Professor Vítor Reis faz no seu magnífico artigo “Sonho de Jacob: visões do Céu nos Tectos da Igreja dos Mártires e das outras Igrejas do Chiado”, publicado na obra “Basílica dos Mártires e as outras igrejas do Chiado”.

Segundo Vítor Reis, as pinturas dos tectos “procuram eliminar, total ou parcialmente, a sólida e opaca superfície arquitectónica da cobertura dos templos e substituí-la por ilusionistas superfícies abertas ou estruturas transparentes que tornam possível uma visão em escala do mundo celestial. (…) Estas pinturas são uma forma de concretização do sonho de Jacob: o interior do templo torna-se o espaço de comunicação entre o céu e terra, o lugar onde ao sujeito é oferecida uma espécie de escada pictórica que lhe permite ascender a essa outra esfera ou dimensão, marcadamente visual, da sua experiência espiritual”.

Na igreja do Santíssimo Sacramento até a escolha da sua orientação serviu para fazer catequese sobre a Eucaristia: o pórtico da igreja está voltado para oriente, como que a contemplar a Deus que nos visita como sol nascente (cf Lc 1, 78) e permanece connosco na sagrada Eucaristia, o sol que ilumina e é a fonte de vida, do cristão e da Igreja, neste dia que nasceu na manhã da ressurreição e cujo ocaso será a manifestação gloriosa de Cristo, em que Ele próprio, e não já por sinais, nos iluminará.
Aliás, contemplando o tecto da nave, imediatamente nos damos conta que o autor, através das sombras do trompe-l’oeil, nos chama a atenção para a luz que a partir do oriente inunda a terra inteira, ignorando intencionalmente a luz que entra pelo grande óculo voltado para poente.

Se esta intenção catequética está presente nos pequenos pormenores, quanto mais o não estará na pintura dos tectos… Na verdade, neles tudo é catequese eucarística. A começar pelos anjos que, dois a dois, seguram símbolos eucarísticos. Os característicos anjos de Pedro Alexandrino, não são, ao contrário das grinaldas de flores, ou do perfeitíssimo trompe-L’oeil ou dos próprios símbolos da eucaristia, meros elementos decorativos. Se na Eucaristia se unem o céu e a terra, é evidente que os anjos estão presentes nela. Cantamos com os anjos – a isso somos convidados na oração eucarística, no final do prefácio - e são eles que recebem das nossas mãos a oferta e a levam ao excelso altar de Deus. São ainda os anjos que, invisivelmente, distribuem a comunhão aos fiéis.
O tecto da capela-mor é muito sóbrio: no centro uma enorme pomba, tradicional representação do Espírito Santo, sobre um triângulo, símbolo da Santíssima Trindade, e, a bordejar o tecto, a meio de cada um dos lados, discretos símbolos eucarísticos: trigo, uvas, o maná, …

As tradições mais antigas põem em relevo as duas petições, epicleses, dirigidas ao Pai para que envie o Espírito Santo: para que o pão e o vinho se convertam no Corpo e no Sangue do Filho, e, depois da consagração, para que os fiéis, alimentados com o Corpo de Cristo, cheios do Espírito Santo, se convertam numa oferenda eterna à glória do Pai. Neste tecto de Pedro Alexandrino, nada distrai os fiéis ou os desvia da centralidade que deve ter o altar da eucaristia. As referências à Santíssima Trindade e ao Espírito Santo só nos focalizam no essencial.

No medalhão central do tecto da nave, que vemos nós? Num primeiro plano, Cristo, nosso Cordeiro Pascal; Maria Santíssima com coroa e ceptro reais, tendo no ventre o sacrário; um anjo com um trompete nas mãos.

“Sabei que fostes resgatados (…) pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro pascal e sem defeito algum” (1Ped 1, 18), recorda-nos Pedro, exortando todos à santidade. Cristo, imolado na cruz, resgatou-nos do pecado e da morte. Por isso, sobretudo no Apocalipse, “Cordeiro” é o nome de Jesus glorificado. Numa magnífica liturgia celestial, o Cordeiro, sentado no próprio trono de Deus, está rodeado de muitos anjos, miríades e miríades, e por todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, que O aclamam dizendo: “Digno é o Cordeiro, que foi imolado, de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra e o louvor” (cf Ap 5, 11-14).

O triunfo do Cordeiro imolado está representado na parte superior do medalhão. Mais abaixo uma série de figuras expectantes do Antigo Testamento – o Rei David, com a harpa; Moisés com as tábuas da Lei; Aarão e outras figuras que poderão representar os profetas, contemplam ao longe a liturgia atrás descrita. Mais abaixo, Maria Santíssima surge rodeada de três personagens que bem podem representar “todos os povos e nações”: à sua esquerda um homem de turbante; à sua direita, um negro e uma mulher trajando segundo a moda ocidental da época.
Entre uns e outros – os representantes do Antigo Testamento e os representantes dos povos de toda a terra – e sobrepondo-se a eles, o Anjo do trompete dá a todos, aos justos do Antigo Testamento, aos povos de todas as nações e a nós também, a boa notícia: Cristo é o vencedor!

Para branquearmos as nossas túnicas no sangue do Cordeiro e cantarmos diante do Seu trono o cântico novo – o cântico da vitória que Cristo colocou ao nosso alcance - Maria aponta o caminho: “Eis aqui o tabernáculo de Deus entre os homens! Habitará com eles, serão o seu Povo e o próprio Deus estará com eles” (Ap 21,3).

O caminho é Jesus Sacramentado. Maria que “ofereceu o seu ventre virginal para a Encarnação do Verbo de Deus” (EDE, 55), surge na pintura de Pedro Alexandrino, rodeada de todos os povos e nações, grávida do Santíssimo Sacramento, “o Jesus escondido” nos sacrários das nossas igrejas. “Na Anunciação, concebeu o Filho divino também na realidade física do corpo e do sangue, em certa medida antecipando nela o que se realiza sacramentalmente em cada crente quando recebe, no sinal do pão e do vinho, o Corpo e o Sangue do Senhor” (ib). E voltando a citar o saudoso Papa João Paulo II na encíclica “A Igreja Vive da Eucaristia”: “Com efeito, Maria pode guiar-nos para o Santíssimo Sacramento porque tem uma profunda ligação com ele” (ib, 53).
O Cordeiro é o nosso alimento! A Jesus sacramentado, o Cordeiro imolado que nos remiu de toda a culpa, a honra e o poder. Amén! Como os anciãos do Apocalipse, prostremo-nos em adoração (cf Ap 5, 15)

Os tectos da igreja do Santíssimo Sacramento, agora restituídos ao povo de Lisboa, oferecem aos católicos uma profundíssima catequese sobre a Eucaristia.

Como obra de arte revelam, melhor que qualquer das abundantes obras do mesmo autor, a genialidade de Pedro Alexandrino.

A circunstância de não ter sido alvo de qualquer intervenção desde a sua conclusão, em 1805, permite-nos agora desfrutar aquilo que efectivamente Pedro Alexandrino pintou.

Cónego Armando Duarte